Terça-feira, Janeiro 17

Eu é que não sou parvo ...

Não sou defensora de facilitismos e ao contrário da minha geração não me considero “à rasca”. É verdade que temos de fazer pela vidinha e que o tempo das vacas gordas já lá vai, mas há limites.
 
A proposta de permitir aos desempregados acumular até metade do subsídio é coisa de gente autista. Segundo consta partem do pressuposto que é preferível regressar ao trabalho a ficarem cada vez mais afastadas do mercado. Dizem as mentes brilhante que é um incentivo contra o desemprego (?!?).
 
Eu diria que é um incentivo à precaridade, a uma sociedade marcada pela desigualdade e onde tende a desaparecer a chamada classe média. No fundo estaremos a desviar do mercado de trabalho todos os que, não tendo nascido em berço de ouro, não terão hipótese de provar o que valem, de procurar trabalho na sua área e adquirir experiência nem que seja a troco de nada.
 
Não defendo quem diz que não trabalha porque ganha mais em casa, mas compreendo que todos têm o direito de tentar procurar e seguir o seu caminho.
 
Muitas histórias de vida já me ensinaram que por vezes basta um desvio para não conseguiremos retomar a direcção certa.
A A. teria sido uma jornalista brilhante se não tivesse de se agarrar a um trabalho de administrativa para viver.
A V. daria uma boa psicóloga se não tivesse começado a trabalhar na Zara onde é hoje directora de loja.
O P. teria sido um óptimo professor se hoje não fosse director de um departamento de uma companhia de seguros.
Para viver cada um deles teve de se agarrar ao que havia e por lá ficou conseguindo ascender até onde foi possível. Mérito próprio? Sem duvida!
Serão felizes? Acredito que sim porque tentaram e as decisões que tomaram foram opção e não imposição.
 
Posto isto apenas digo que se tivesse de servir cafés e lavar pratos para comer fá-lo-ia como já o fiz por carolice, mas não me apresentem isso como alternativa ao que tenho direito: uma oportunidade de trabalho na minha área porque acredito que há sempre um lugar para quem é bom e não desiste.
 
E sim continuo a dizer que não somos uma geração à rasca mas pelas medidas que nos apresentam julgam-nos uma geração de parvos.

6 Complicações:

art.soul disse...

concordo plenamente contigo. e ainda ontem assisti a uma conversa (terá sido monólogo?) dos meus patrões nesse mesmo sentido.

estamos mergulhados num imenso vale-tudo...

Prezado disse...

Quando ouvi esta fiquei na dúvida se seria bom ou mau - sou suspeito, podia pensar logo que era mau porque vinha deste governo mas dou-me sempre ao trabalho de pensar mais um pouco, nunca se sabe - e agora tenho a mesma opinião que tu: isto só serve aos patrões e prejudica todos, a começar pelo estado, e ainda tem o bónus de meter toda a gente a viver acomodado ao mínimo possível.

Anónimo disse...

Subscrevo INTEIRAMENE, infelizmente encontro-me desempregada neste momento, apesar de ter uma licenciatura e uma Mestrado em psicologia, desde que terminei a minha formação já trabalhei como recepcionista, como assistente comercial e como administrativa num hospital privado, no entanto não desisto de lutar pelo que é meu PODER TRABALHAR NA MINHA ÁREA DE FORMAÇÃO E SE POSSIVEL COM TOXICODEPENDENTES (mas isso já seria pedir milagres...) respondo maioritariamente a anuncio de administrtiva secretaria ou recepcionista e por vezes sou excluida á partida por ter tantas hab literarias, mas não tenho vergonha nem desprimor em dizer por hora que venha como adm ou recp ou secretária, mas que venha, lá virá a minha psicologia.
SÓ NÃO DESISTO
MJ

MC disse...

art.soul
Esse vale-tudo é que me preocupa


Prezado
Ai é que está. Acham que nos devemos sujeitar em prol de meia dúzia de tostões. Não interessa o valor que tens nem o que investiste em formação.


Anónima:
Que fique bem claro que não acho desprezo nenhum o trabalho como administrativa, comercial, assistente ou o que quer que seja. O que me custa é que se investe em formação, investe-se num futuro que simplesmente desvalorizam. Felizmente entrei no mercado numa altura em que ainda havia por onde procurar e tinha o apoio da família para que não tivesse de me agarrar a outras coisas. Tive oportunidade de experimentar o que gostava e dar-me ao luxo de trabalhar de graça. Hoje não teria essa sorte e teria de me agarrar ao que há e ai sejamos realistas:
o CV é algo que se constrói e se uma pessoa se ocupa só para ganhar uns trocos está a perder vantagem em relação aos outros.

D.Pereira disse...

é verdade, eu possivelmente não me importaria de trabalhar em algo que não me diz nada por estar a passar dificuldades financeiras, mas se preferia ter direito a algo na minha área? é lógico que sim e devia ter direito a isso.

MC disse...

D. Pereira
Se te obrigam a aceitar o que há, estão te a tirar oportunidades